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PESQUISA DEMONSTRA ESTUDO DE DOENÇAS PSÍQUICAS NA AMBIÊNCIA JUDICIÁRIA

Sobre o tema saúde do servidor do Poder Judiciário, o SOJEP destaca um importante estudo realizado pela médica Rosely Timoner Glezer, na década de 90, intitulado “Estigmatização e Sofrimento Mental no Trabalho em Empresas Públicas Judiciárias”, que traz à baila, com profunda nitidez, os problemas de natureza psíquica advindos na ambiência judiciária. Vale a pena conferir. Segue, pois, o trabalho de pesquisa na íntegra:  

Estigmatização e Sofrimento Mental no Trabalho em Empresas Públicas Judiciárias 

Stigma and Mental Suffering at Work in Public Judicial Corporations  

 Rosely Timoner Glezer 

Formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Especialista em Geriatria e Gerontologia pela Associação Médica Brasileira. Especialista em Clínica Médica pela Associação Médica Brasileira. Médica do Trabalho registrada no CRM-SP.

Correspondências para: 

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Resumo  

O presente estudo foi proposto com o intuito de investigar os principais fatores responsáveis pela importante contribuição dos distúrbios mentais para o absenteísmo e estatísticas de atendimento médico em uma empresa pública judiciária. Trabalhando no serviço de saúde, a autora entrevistou e examinou 33 servidores públicos acompanhados pela equipe de saúde por doenças mentais, além de ter participado de vários grupos de discussão com os servidores, relacionados à percepção individual e coletiva da organização global de trabalho. 

Dentre uma população de 2.785 servidores à época do estudo, o ano de 1.999, 140 eram seguidos pela equipe por distúrbios psicológicos ou psiquiátricos. Trinta e três pacientes foram selecionados e conduzidos à anamnese clínica e ocupacional, exame físico e entrevista dirigida. 

O grupo selecionado apresentou sofrimento mental considerável, motivado pela falta de compreensão pelas autoridades, ambiente competitivo, sobrecarga de trabalho, exigência de produtividade e ausência de recompensas, além da frustração pela impossibilidade de conquista de suas expectativas profissionais. 

A morosidade dos procedimentos burocráticos, a rígida hierarquia e o estigma imputado aos servidores pelos cidadãos e veículos da imprensa, a carência de perspectivas profissionais e a descrença em mudanças podem apenas ser superadas pela estabilidade na carreira, garantia de vencimentos e os poucos benefícios remanescentes dos servidores públicos. 

 Palavras-chave: Estigmatização, sofrimento mental, instituição judiciária  

 Introdução 

Durante anos de trabalho no ambulatório médico de uma empresa pública judiciária, foi observado elevado índice de absenteísmo relacionado a patologias de cunho psiquiátrico, distúrbios psicossomáticos e outros agravos à saúde mental, além de elevada demanda de pacientes que buscavam auxílio da equipe de saúde apresentando queixas relativas a estas questões. O presente estudo teve, portanto, o objetivo de analisar as causas que poderiam estar relacionadas ao sofrimento mental dentre o universo particular dos servidores públicos do Poder Judiciário.  

 Material e Métodos

Após pesquisa relacionada às características demográficas, dinâmica de trabalho da empresa, relações hierárquicas, relacionamento entre servidores e chefias, organização do trabalho, métodos de controle dos processos, benefícios e reivindicações dos servidores, foi realizado levantamento do número de pacientes sob acompanhamento da equipe de saúde por agravos à saúde mental no período de 1994 a 1999. Foi determinada a amostra a ser estudada, optando-se pela análise de 33 servidores atendidos nos períodos mais recentes, com os quais foram realizados anamnese clínica e ocupacional, exame físico e entrevista semidirigida, em ambiente que lhes garantia privacidade, o consultório médico. 

Além das entrevistas com os servidores selecionados, foram realizadas reuniões com equipes de determinadas varas judiciárias, independente do acometimento à saúde mental, para melhor compreensão das relações de trabalho e percepção dos mesmos acerca da dinâmica da instituição.  

Resultados 

De um total de cerca de 140 servidores em acompanhamento pela equipe de saúde da instituição, no período de 1994 a 1999 por patologias relacionadas à área de saúde mental, foram selecionados 33 servidores (23,57% dos pacientes) para abordagem mais detalhada, os quais foram submetidos à entrevista semidirigida pela autora, após a realização de anamnese clínica e ocupacional e exame físico. 

Dentre os componentes da amostra, encontravam-se 22 mulheres e 11 homens, perfazendo uma razão de um homem para cada duas mulheres, com média etária de 40,45 ± 1,26 ano (intervalo de 39,19 a 41,71 anos). 

Quanto ao estado civil, houve predomínio de servidores solteiros (16 servidores, 48,48%), seguidos pelos separados (27,27%) e casados (21,21%).

Quanto ao cargo dos entrevistados, observou-se predomínio de patologias mentais entre os cargos que exigiam escolaridade de nível médio.  

Quanto ao local de trabalho dos entrevistados, predominaram os servidores lotados nas varas judiciárias (19 casos, 57,58%), com diferença significativa daqueles lotados nos outros setores. 

Quanto ao tempo de serviço, observou-se entre os pacientes uma média de 8,8 ± 0,93 ano (intervalo 7,87 a 9,73 anos). 

Quanto à formação escolar, predominavam os pacientes com escolaridade de nível superior (14 casos, 42,42 %), nove dos quais formados em Direito e oito cursando novas faculdades.

Quanto à incidência de tabagismo, notou-se que 25 pacientes (75,76%) não fumavam na ocasião, um havia deixado de fumar recentemente e sete (21,21%) eram tabagistas (cinco utilizavam até um maço de cigarros ao dia e dois pacientes até dois maços ao dia). 

Quanto ao uso de bebidas alcoólicas, 24 pacientes (72,73 %) negaram-no, cinco (15,15%) referiram fazer uso regular da mesma e quatro (12,12%) relataram fazer uso ocasional. Quando questionados acerca do uso atual ou passado de drogas ilícitas, apenas um paciente confirmou o uso.

Quanto ao uso de medicações, 20 pacientes (60,61%) relataram fazer uso de uma ou mais drogas, havendo predomínio dos antidepressivos (11 casos), neurolépticos (cinco casos), benzodiazepínicos (quatro casos), analgésicos (cinco casos) e antipsicóticos (um caso).

Questionados acerca de licenças médicas que já haviam gozado, não se restringindo a questão a apenas um período, foram computados sete pacientes que referiam nunca haverem sido afastados do trabalho por motivo de saúde; 16 (45,71%) referiam afastamentos por motivos psiquiátricos ou psicossomáticos, sete (21,21%) afastamentos por motivo ortopédico, cinco (15,15 %) por cirurgias, tendo quatro servidores relatado terem se afastado por períodos bastante prolongados. 

Quando verificadas as informações contidas nos registros de licenças médicas do ambulatório, constatou-se a soma total dos períodos de afastamento destes servidores em 5.137 dias, perfazendo 155,67 dias de licença/servidor, considerando-se todas as licenças médicas gozadas por cada servidor. 

Quando questionados acerca da satisfação com suas condições de vida em geral, 22 (66,67 %) mostraram-se insatisfeitos, três relativamente satisfeitos e apenas oito (24,24%) satisfeitos. Já com relação a seu trabalho, 26 (78,79%) declararam-se insatisfeitos, quatro relativamente satisfeitos e apenas três (9,09%) mostraram-se satisfeitos. 

Diante do inquérito sobre o motivo que os fizera procurar o ambulatório médico, com a liberação de mais de uma resposta, traçou-se o seguinte perfil: 16 servidores (48,48%) haviam procurado cuidados médicos por queixas físicas, tendo sido, por ocasião da consulta, constatados problemas emocionais; sete já haviam se apresentado devido aos problemas emocionais, quatro por dificuldades funcionais, principalmente relacionadas à chefia, seis haviam sido encaminhados por suas chefias, seis por se encontrarem sob processo disciplinar e sete com o intuito de solicitar licença médica ou receber a homologação de atestados externos. 

As queixas mais freqüentes apresentadas (Tabela 1) foram, em ordem decrescente de freqüência: tonturas (36,36% dos pacientes), dores na coluna e dores no estômago (27,27%), cefaléia ou enxaqueca (24,24%), problemas emocionais (21,21%), ansiedade, nervosismo, depressão (18,18%), sendo que as queixas psicológicas foram descritas de maneiras diversas, tendo sido utilizados os seguintes termos: ansiedade, choros, medo, claustrofobia, sonolência, perda de memória, reações obsessivas, mágoa, frustração, desejo de morrer, dificuldade para tomar atitudes, letargia, angústia, solidão, sensação de perseguição, problemas emocionais, depressão, insônia,desgaste, escuta de vozes, dificuldade para acordar, nervosismo e pânico.

Quando inquiridos acerca da existência atual ou anterior de processo disciplinar contra os mesmos, 10 (30,30%) dos 33 referiram já terem sido submetidos a tal situação, perfazendo a razão de um paciente sob sindicância para 2,3 sem qualquer processo disciplinar. 

A respeito de internações anteriores em clínicas psiquiátricas, seis (18,18 %) entrevistados responderam positivamente à questão, perfazendo uma razão de um servidor já internado para 4,5 sem internação prévia. 

Na questão relacionada às tarefas desenvolvidas, podendo ser elencada mais de uma atividade por servidor (Tabela 2), houve predominância do atendimento ao público, geralmente em balcão (39,39%), trabalho em pé (21,21%), digitação (18,18 %), além da tramitação dos processos, vigilância (agentes de segurança), datilografia, uso de carimbos, numeração de folhas, uso de furadores de papéis, atendimento telefônico, entrega de mandados e penhora de bens (oficiais de justiça). Dois pacientes encontravam-se em licenças prolongadas e não chegaram a referir suas atividades. 

Com relação aos problemas físicos percebidos pelos servidores em seu local de trabalho, 12 não referiam problemas e os 21 restantes apresentaram de uma a várias questões que lhes pareceram importantes, predominando a falta de espaço físico (18,18% das entrevistas), mobiliário inadequado (27,27%), poeira (21,21%), ventilação inadequada (24,24%), temperatura inadequada (24,24%). Alguns referiram ruído excessivo, desconforto pelo cigarro dos colegas, iluminação insuficiente, horário de serviço inadequado, excesso de baratas e falta de higiene em sanitários. Dois servidores, que realizavam trabalhos externos, atribuíram agravamento de sua dependência às tentações das ruas com relação ao consumo de álcool. 

Com relação aos fatores que interferiam negativamente com seu trabalho, apesar da múltipla escolha, houve grande diversidade de respostas, predominando os problemas sócio-econômico-familiares (51,52%), problemas com chefia (27,27%), problemas de saúde (24,24%) e dificuldade de relacionamento (21,21%). Também foram descritos falta de motivação, excesso de serviço e de responsabilidade, competitividade, falta de perspectivas, decepção com distribuição de verbas, dificuldades funcionais, pressão excessiva de público, falta de valorização, angústia por submissão a processos administrativos, desgosto pelo trabalho realizado, dificuldades para chegar no horário, interferência da chefia em sua vida pessoal, entre outros. Três servidores referiram desejar mudar de setor. 

Quando questionados com relação a seus sentimentos em seu local de trabalho, também com a permissão de mais de uma resposta, foi obtida uma ampla gama de afirmações, que foram classificadas de acordo com palavras correlatas. As palavras-chave que tiveram maior referência, através de palavras correlatas, demonstrando a avaliação que o servidor tinha de si mesmo em seu local de trabalho (Gráfico 1), foram: humilhação, desrespeito (36,36% dos servidores), pressão, perseguição (33,33%), medo, insegurança (30,30%), solidão, isolamento (24,24%), frustração, desgaste (24,24%). Apenas 18,18% relatavam a sensação de apoio e bem-estar. Foram também mencionadas sub-utilização das potencialidades, desmotivação, incompreensão e traição. Apenas um servidor mostrava-se orgulhoso por trabalhar em uma empresa de repercussão nacional. 

Quando indagados acerca da presença de problemas pessoais ou familiares, oito (24,24%) relataram não possuir nenhum problema do gênero, 11 (33,33%) relataram problemas financeiros, sendo significativos também os problemas conjugais (27,27% dos servidores entrevistados), dificuldades com filhos (18,18%), doenças e morte na família (21,21%), problemas de relacionamento (15,15%) e familiares (15,15%). 

Com relação a mudanças de local de trabalho, constatou-se que 21 servidores haviam mudado de lotação, tendo 12 permanecido no mesmo setor, numa razão de 1,75:1. Tais alterações haviam sido motivadas principalmente pela falta de adaptação (33,33% dos casos) e dificuldade de relacionamento (21,21% dos casos), além de cumprimento inadequado das tarefas, limitações físicas, com o objetivo da não exposição à tentação da bebida na rua (oficial de justiça passando a executar trabalho interno), entre outras. Dois servidores referiram desejar mudar de setor. 

Quando indagados sobre o que os faria sentir melhor, obtiveram-se as seguintes afirmativas: quatro (12,12 %) consideravam-se melhorados e os restantes referiram almejar mudança de local de trabalho (15,15%), licença médica (12,12%), melhora nos relacionamentos (12,12%), paz (9,09%), aposentadoria, melhora na saúde de familiares, compreensão, mudança de atividades ou melhoria das condições financeiras. Um servidor referiu que apenas a morte lhe parecia a única solução.  

Por último, foi utilizada a avaliação realizada por psiquiatras, constante do prontuário médico, para análise da patologia de cada servidor. Treze dos pacientes não haviam procurado avaliação psiquiátrica, portanto os dados da tabela se referem a apenas 20 indivíduos. Sete indivíduos (30,00% dos casos avaliados) haviam recebido a hipótese diagnóstica de quadro depressivo, seis (35%) de transtornos de personalidade, três (15%) de transtorno obsessivo-compulsivo, dois (10%) de dependência química e dois (10%) apresentavam déficit intelectual.  

Discussão  

Dos 2.785 servidores da empresa, 140 (5,03%) eram acompanhados em 1999 pela equipe de saúde por patologias de origem psicossomática, psicológica ou psiquiátrica. Dentre tais pacientes, foi selecionada uma amostra de 33 servidores (23,57%) com comprovado sofrimento mental.

O critério de seleção dos entrevistados deu-se pela proximidade temporal dos sintomas e disponibilidade de acesso dos pacientes que se encontravam prestando serviços nos fóruns da capital, a maioria dos quais trabalhava no prédio em que o ambulatório se encontrava situado, que englobava o maior número de servidores da empresa, a fim de evitar-lhes o incômodo do deslocamento. 

Na amostra estudada, houve um predomínio significativo de mulheres com sofrimento mental (razão de duas mulheres para cada homem), apesar de apenas 51,56% dos trabalhadores da empresa serem do sexo feminino, dado este que leva à suposição de maior incidência de agravos de saúde mental entre as mulheres.

A média etária foi semelhante à obtida na população geral da empresa, mantendo-se em 40,45 anos, não sendo possível, através destes dados, considerar um grupo etário de maior risco para estas patologias. 

Os cargos que exigiam escolaridade de nível médio predominaram dentre os servidores portadores de patologias mentais. Em tal categoria, encontravam-se inúmeros indivíduos de formação universitária, que haviam buscado o emprego público como alternativa às dificuldades encontradas no mercado de trabalho, mostrando-se com importante grau de sofrimento pela frustração de seus ideais profissionais, monotonia das tarefas, obediência a chefias com escolaridade inferior à sua (1). 

Quanto ao local de trabalho, havia nítido predomínio da patologia mental nas Varas Judiciárias, ambiente onde era descrito maior nível de tensão, alta competitividade, opressão dos servidores pelas chefias, hierarquia rigidamente estabelecida, importante pressão de público, desrespeito por parte de advogados, rotinas sujeitas às determinações do juiz coordenador.  

Em entrevistas e reuniões com grupos de servidores, ouviu-se os seguintes depoimentos: "Eu não sou nada, só importa juiz, promotor e advogado, o resto é ralé"; "Eu penso com a cabeça do juiz, se ele erra não contesto, assumo seu erro"; "Quando o advogado me contesta, fico o dia todo aborrecido"; "Eu sou outra pessoa aqui dentro, abaixo a cabeça para tudo, digo: Doutor, o senhor está coberto de razão. Eu aprendi a ser assim."  

Quanto ao tempo de serviço, a incidência de doença mental foi maior entre servidores com maior tempo de serviço, fato que sugere a relação da doença com o desgaste no trabalho. Houve uma média de 8,8 anos de tempo de serviço (na população geral foi de 7,03 anos). 

Quanto à formação escolar, predominou a escolaridade de nível superior (42,42 %), com grande número de bacharéis em Direito, podendo tal fato ser relacionado à frustração profissional e desejo de galgar na carreira. Tal distribuição era inferior à da população geral (60,06%). 

O abuso do álcool era justificado pelos pacientes como meio de fuga das tensões diárias, autopunição, busca de prazer, de interação social e de bem-estar, vinculando-se a sensações de desgaste, humilhação, dificuldades pessoais e familiares, problemas de relacionamento, entre outros. Foi relativamente freqüente a dependência a álcool e outras drogas na empresa, principalmente dentre funcionários mais antigos (2). Tais servidores aparentavam segurança com relação à impunidade, possuíam táticas para encobrir o vício, ressentindo-se com as novas políticas da área de saúde no sentido de combate e tratamento da dependência química. Por se tratar de empresa publica, até o presente estudo não existia relato de exoneração ou punições maiores por abuso de álcool ou drogas, imputando-se à instituição o peso de arcar com o comportamento e os prejuízos causados por tais servidores.O uso de drogas foi negado pela maioria, pela dificuldade geral de compreensão e assunção do caráter patológico da dependência pelos pacientes em geral. 

Desde sua implantação, a equipe de saúde tem desenvolvido diversos programas de tratamento e acompanhamento dos dependentes químicos e trabalhado no sentido da implantação de políticas efetivas de abordagem dos pacientes e conscientização das chefias e servidores em geral. 

Faziam uso de uma ou mais medicações 60,61% dos pacientes, algumas delas prescritas por médico, mas muitas ingeridas através de automedicação, fato freqüente entre pacientes psiquiátricos, na busca de um milagre que lhes poupasse das decisões e tensões da vida diária, escondendo-se da realidade através de drogas.  

A insatisfação com a vida e principalmente com o trabalho foi a tônica entre os entrevistados. O trabalho aparentou ser causa importante de sofrimento, uma vez que a insatisfação e a impossibilidade de realizar alterações no modo de vida, levando à impotência, falta de perspectivas e a um certo embotamento com relação à vida em geral, contribuindo para um aumento das patologias físicas e psicológicas, de acordo com dados relatados por Edith Selingman (3). 

Quando avaliados com relação aos motivos de procura inicial do ambulatório, muitos relatavam ter procurado ajuda por queixas físicas, sendo constatada a maior facilidade em assumir o sofrimento físico do que o mental, fato que é confirmado por dados de literatura. Muitos procuravam atendimento médico apenas com o objetivo de solicitar licenças médicas alívio da situação angustiante. Apenas 21,21% haviam buscado auxílio relatando claramente os problemas emocionais, uma vez que a maioria temia demonstrar "fraqueza, loucura" ou prejudicar-se pelo preconceito que suas "falhas" poderiam motivar, prejudicando sua carreira na instituição. Vários servidores haviam comparecido encaminhados por superiores ou motivados por algum tipo de dificuldade funcional. 

Havia uma ampla gama de sintomas referidos pelos servidores entrevistados (Tabela 1), muitos dos quais podem ser relacionados à somatização, pois de acordo com literatura consultada, "Quando a mente não pode falar, o corpo fala" e o corpo fala sempre, sob a forma de sintomas vagos, sensação de mal estar de repetição, além das conhecidas queixas psicossomáticas: tonturas (36,36% dos servidores), distúrbios gastro-intestinais, dispnéia, palpitações, dores difusas e várias queixas relacionadas à mente: ansiedade, choros, depressão, problemas emocionais, medo, sonolência, entre outras, sempre relacionadas a perturbações, angústia, temor, sofrimento. 

Os antecedentes pessoais mais importantes dos pacientes constituíam-se em um acidente automobilístico grave com óbito de familiares, pânico pós-assalto, perda do status de chefia, antecedentes de psicose/surto psicótico, dependência química e investigação por suspeita de crime cometido contra a instituição. 

A questão a respeito de processo disciplinar era marcante na empresa considerada, pois servidores com dificuldades funcionais, de relacionamento com chefias ou colegas de trabalho, com faltas injustificadas e outras questões funcionais diversas vezes eram submetidos a sindicâncias administrativas, para fins de esclarecimento acerca das causas do desvio de conduta. Com freqüência tais processos eram remetidos ao ambulatório médico para avaliação quanto à existência de doença que justificasse tal conduta. Haviam sido submetidos a processos disciplinares (sindicâncias) 30,30% dos casos (5).A avaliação pela equipe de saúde constituiu-se em uma evolução na conduta administrativa, visto que anteriormente vários servidores com condutas motivadas por algum grau de doença se viam constrangidos por estes processos administrativos.  

A doença mental havia sido aceita apenas recentemente como tal pela instituição, tanto em nível de chefias como dos próprios servidores.Os primeiros consideravam licenças concedidas a pacientes com patologias mentais como "férias" ou "prêmios", durante as quais se o paciente fosse visto em qualquer lugar sem apresentar fáscies de desespero, sofria ridicularização quanto à doença e à concessão da licença médica. Os servidores temiam o preconceito de serem taxados como "loucos" e evitavam qualquer abordagem terapêutica nesta área, fato mais significativo entre chefias e servidores em estágio probatório na instituição (primeiros três anos de exercício no cargo, quando o servidor é avaliado quanto à indicação de efetivação ou não), os quais acreditavam que tais dados contariam negativamente em sua ficha de avaliação funcional. Esse fato sempre foi contestado pela equipe de saúde, que sempre garantiu e manteve o sigilo das informações. 

Quanto à descrição das atividades executadas (Tabela 2), consistiam basicamente em atividades de tramitação dos processos (atividades repetitivas de conferência, numeração, emprego de carimbos e furadores, arquivamento, operação de máquinas de xerox, transporte de grandes volumes) e atendimento ao público. Tal atendimento era referido como desgastante, diante do confronto constante entre a morosidade no andamento dos processos, pelo qual eram responsabilizados sem qualquer razão e a cobrança constante pelos usuários de seus serviços. 

Relatavam também que sempre que iniciavam alguma atividade em sua mesa de trabalho, eram interrompidos para atender ao público, devendo reiniciar continuamente o raciocínio. Referiam ainda que recebiam inúmeras solicitações de informações desnecessárias, acessíveis nos terminais de computadores do andar térreo. As atividades repetitivas e monótonas, com cobrança freqüente de produtividade, eram relatadas como causadoras de mal estar físico e mental.

Quanto à avaliação pelos servidores de seus locais de trabalho, as queixas foram enfáticas e múltiplas, tendo sido comprovada a inadequação do mobiliário à época do estudo, sem preocupação ergonômica, mesas atulhadas de processos, impedindo a livre movimentação, a maioria das mesas para computador não reguláveis, ocorrendo queixas freqüentes de lombalgia. Nas varas judiciárias, as salas geralmente eram repletas de mesas em todas as direções, rodeadas de estantes com pilhas infinitas de processos, muitas vezes colocados em prateleiras altas, que dificultavam o acesso aos mesmos.  

Quanto à temperatura e ventilação inadequadas, esta queixa se relacionava ao controle de central da temperatura, estando esta submetida à vontade de alguns, havendo relatos de sala muito fria ou muito quente, de acordo com a sensibilidade individual. A poeira relatada era conseqüência do excessivo número de processos, muitos bastante antigos. 

Quanto aos fatores que interferiam negativamente no trabalho, predominavam os problemas sócio-econômico-familiares. Tais dados estão de acordo com a literatura, uma vez que qualquer problema pessoal logicamente se refletirá na vida profissional. Alguns servidores referiam problemas conjugais, com filhos, doenças na família, entre outros. Dificuldades econômicas eram freqüentes, desde que houve queda importante no nível de rendimento nos últimos anos do servidor público, há vários anos sem aumento de salários. Ocorria sensível aumento do afluxo ao ambulatório em períodos de crises econômicas, principalmente de servidores com queixas psicossomáticas. 

Problemas com chefias eram fatores importantes relatados, com sentimentos de perseguição, desrespeito, humilhação, pressão e falta de entendimento e importante contribuição para o adoecimento individual e coletivo (Gráfico 1). Vários relatos de servidores exemplificam a situação: "Quando ele me pergunta se está tudo bem, deixa claro que é com o andamento dos processos e não com minha saúde"; "Tenho que cumprir minhas tarefas no prazo, mesmo que seja obrigado a interrompê-las para realizar outras atividades que o chefe determinou"; "Toda a pressão transforma a pessoa e a torna doente; "Sou mais neurótico agora que antes"; "Todo mundo é descartável, ficou doente, não serve mais, perde o cargo"; "Esta empresa cria doentes, o sistema fere as pessoas".  

Também relatavam competitividade, dificuldades de relacionamento, desvios de função. Referiam que servidores mais antigos eram privilegiados, que mesmo com má formação universitária galgavam cargos e desmereciam o trabalho de quem mais se esforçava. 

Outros ainda queixavam-se de falta de motivação, monotonia, repetitividade de tarefas. Referiam que as habilidades solicitadas no edital para o cargo não eram respeitadas, que "Fica quem não tem ambição, quem é bom vai embora"; "No começo, aprende-se muito, depois não há mais a se aprender e tudo fica monótono, repetitivo, exigindo maior atenção para evitar erros"; "Não consigo plantar nada"; "Aqui todos são descrentes em mudanças, já perdemos qualquer esperança de melhorias, principalmente os antigos na empresa". 

Todos os depoimentos denotavam grau importante de desgaste, sofrimento, impotência, frustração, aceitação de uma realidade com a qual não concordavam, mas que se viam impedidos de criticar abertamente. 

Acresce-se a isso o estigma social estabelecido sobre o funcionário público, considerado como oportunista e vadio, fato que motivava grave ressentimento dentre os servidores, que labutavam em condições adversas, com baixos salários, excesso de serviço, equipamento e mobiliário inadequados, sem os privilégios que a imprensa tanto denunciava, os quais encontravam-se além do alcance do funcionário comum . Além de tudo, por se tratar de empresa voltada basicamente ao atendimento do público, não existia proteção ao servidor quando desrespeitado por pessoa a quem assistia, sabendo, todavia, que poderia ser punido caso revidasse agressões verbais sofridas, outro componente que incrementava o desgaste mental. 

Quando o próprio nível de relacionamento encontra-se comprometido, o indivíduo se sente solitário numa multidão e nada poderia ser mais prejudicial a sua saúde física e mental. Para um ambiente onde o indivíduo despende grande parte de sua vida, tempo superior ao que dedica à família, claramente se percebe a patologia da instituição, levando a sofrimento individual e coletivo, estigmatizando alguns indivíduos e imputando-os por falhas relativas à própria organização do trabalho, pois se torna cômodo psicologizar problemas reais, assim mascarando-os e contestar as críticas sob a lógica da doença mental, dados estes também compatíveis com achados de literatura (4). 

Foi marcante também a constatação da alteração da personalidade de vários indivíduos ao atingirem cargos que lhes atribuíam algum poder, alternando-se assim as figuras de oprimidos e opressores em um mesmo indivíduo, de acordo com o lado da corda em que se encontravam, esquecendo-se do mal a eles causado e, ao invés de evitar a disseminação do mesmo, passando a contribuir para a manutenção das injustiças.  

Discussão extremamente rica é realizada por Déjours, em "A Banalização da Injustiça Social", acerca de que como as chefias infligem sofrimento sem apresentar personalidade perversa ou paranóica, de como passam a fazer isto para esconder seu próprio sofrimento, de como se escondem na máscara da falta de percepção, das informações imprecisas, da falta de conhecimento dos fatos, da reticência em assumir atitudes prejudiciais (6). O sofrimento pessoal e familiar pode prejudicar as relações de trabalho, por outro lado, o desgaste no trabalho pode levar a um embotamento ativo que se estende para as relações pessoais, levando a graves conflitos, conjugais, familiares, com os filhos, etc. Ambos os fatores são potencializadores entre si, contribuindo acentuadamente para todos os graus de doenças, principalmente mentais e psicossomáticas. Vários servidores já haviam mudado de local de trabalho, por solicitação pessoal ou imposição das chefias, geralmente por falta de adaptação e dificuldades de relacionamento, principalmente com a chefia e colegas de trabalho. 

Como fatores que consideravam poder reduzir seu sofrimento, 15,15% listaram a mudança de setor, que aparentemente os afastaria daquela organização patológica de trabalho, embora diversas vezes percebessem que tal mudança apenas adiaria o surgimento de novos problemas. Outros almejavam melhora de relacionamentos, recuperação financeira, sossego ou até licença médica e aposentadoria, vendo a saída da empresa como uma encruzilhada milagrosa. Um servidor, dependente químico de tal forma desgastado, referiu que apenas a morte se lhe apresentava como solução. 

Dentre as avaliações e hipóteses diagnósticas realizadas por psiquiatras, foram encontradas diversas patologias graves, comprometedoras da produtividade, relacionamento e muitas vezes da percepção e crítica, com vários casos de depressão, a maioria provavelmente causada ou agravada pelos fatos já discutidos, além de transtorno de personalidade. A dependência química, patologia não relacionada a transtorno de personalidade, com componentes genéticos, familiares, ambientais, culturais, entre outros, poderia ser tomada como uma fuga de situações constrangedoras, geradoras de ansiedade ou medo e ser usada como tentativa de aumentar o grau de sociabilização.Também havia alguns casos de psicose, esquizofrenia e déficit intelectual, patologias essas não imputáveis ao trabalho. 

Não se pode deixar de considerar que muitas destas patologias poderiam ter origem orgânica, encontrando-se em estado latente por ocasião da entrada na instituição, apesar de se intuir que todas as situações acima relatadas possam ter contribuído ao menos para seu agravamento.   

Conclusões 

Este trabalho teve o objetivo de demonstrar a presença significativa de sofrimento mental entre os servidores públicos do setor judiciário. 

Constantemente sob pressão aberta ou velada, frustrados pela expectativa não alcançada de ascensão e aprendizado na carreira, excesso de trabalho e sensação de tarefa nunca finalizada, repetitividade das atividades, baixo estímulo à criatividade, burocracia e morosidade. 

Sem perspectivas de ascensão na carreira a não ser através de novos concursos ou de cargos de confiança, competem ferozmente pelos últimos ou estudam arduamente com a esperança de alcançarem melhores perspectivas. Sob a sensação de ameaça pelas imensas pilhas de processos, com freqüente envolvimento emocional com os personagens de seu objeto de trabalho, "idosos desamparados que aguardam a garantia de seus direitos previdenciários, mutuários sob risco de desapropriação, outros desafortunados em risco de perda dos poucos bens que lhes restam", submetem seu corpo e mente silenciosamente a altas cargas, as quais ao longo dos anos se acentuam, passando a prejudicar sua vida laboral, social e familiar. 

A doença mental, incrementando sobremaneira o estigma já perturbador, é tratada com reticência e temor, pretendendo-se mascará-la e esquecê-la, afastando qualquer grau de sofrimento, para que não contamine o todo do trabalho. 

Para redução do nível de sofrimento mental, que muitas vezes associa-se a sofrimento físico, é essencial a educação para desestigmatização dos pacientes, abordagem positiva da chefia e dos colegas de trabalho, apoio na fase de readaptação, evitando-se o paternalismo ou o preconceito, que acabam por impedi-los de se enquadrar à realidade e encontrar parâmetros verdadeiros onde se apoiar.  

Essencial também é o trabalho do serviço social na orientação à família quanto causalidade da doença com relação ao desvio de conduta, evitando-se ressentimentos com relação a atitudes inadequadas e mesmo agressivas e estimulando-os a colaborar com o tratamento. A intervenção nos locais de trabalho prejudicados por chefias mal orientadas e opressoras, motivando uma patologia coletiva e mantendo-se impunes e estáveis em seu poder contribuiria com a redução do adoecimento dos servidores, possibilitando ainda a redução do absenteísmo e melhora da satisfação e qualidade de vida no trabalho. 

A opinião pública também deveria ser esclarecida acerca da real situação destes servidores, passando a cobrar apenas dos culpados e não do último elo da cadeia, o indivíduo exposto ao mesmo sofrimento dos demais cidadãos, completamente impotente para alterar o desenrolar dos fatos, que são conseqüência da organização do trabalho, alheia a seu poder de intervenção (7). Finalmente, fundamental seria a reeducação das chefias e reestruturação da política de cargos comissionados e ascensão na carreira. 

  Abstract 

 The present study has been proposed with the intention of investigating the main factors responsible for the important contribution of mental disturbs in absenteeism and medical consultation statistics in a public judicial corporation. Working at the health service, the author has interviewed and examined 33 public servants accompanied by the health staff for mental diseases, besides joining several group discussions with employees, related to the individual and collective perception of the whole work organization.

 Among a population of 2.785 servants at the time of the study, the year of 1999, 140 were being followed by the staff for psychological or psychiatric disturbs. 33 patients have been selected and led to clinical and occupational anamnesis, physical examination and guided interview. 

The selected group presented significant mental suffering, due to lack of comprehension of authorities, competitive environment, work over-load, productivity requirement and lack of reward, besides the frustration for the impossibility of achievement of professional expectations.  

The slowness of bureaucracy procedures, the stiff hierarchy and the stigma imputed to the employees by citizens and press vehicles, the shortage of professional perspective and the disbelief in changes can only be overcome by the career stability, guaranty of incomes and the few benefits still left to the public servants.   

Keywords: Stigma, mental suffering, juridical corporation  

 Referências Bibliográficas  

 1. Manual de Descrição de Cargos da Justiça Federal. São Paulo: Divisão Gráfica da Secretaria de Administração do Conselho da Justiça Federal; 1994. 

2. Vaissman M. Alcoolismo na Empresa – Uma Realidade. In: Furtado, T. (org). A Falência Psicológica nas Organizações, Rio de Janeiro, 1995 – In Heloani, J.R. (org). Apostila de Psicologia do Trabalho, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, 1999. p.53-69. 

3. Seligmann ES. Desgaste Mental no Trabalho Dominado. Rio de Janeiro: Editora Cortez; 1994. 

4. Nolasco S. O Mito da Masculinidade II. O Trabalho como Base para a Identidade. In: Heloani JR (org). Apostila de Psicologia do Trabalho. Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; 1999. p. 100-22. 

5. Estatuto do Servidor Público Federal – Lei 8.112/90.  6. Dejours C. A banalização da Injustiça Social. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas; 1998. 7. Velloso CMS. Problemas e Soluções na Prestação da Justiça – Texto da palestra proferida no XI Congresso Brasileiro do Magistrados, em Santa Catarina, em 09/90. Revista AJUFE 1991; 28: 14- 24.

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